CASA POUSO DAS CASTANHEIRAS

CONSTRUÍDA

NOVO AIRÃO-AM, 2025

Implantada em um terreno de 26 hectares às margens do Igarapé da Freguesia, um braço do Rio Negro, a residência localiza-se a 15 minutos de canoa do município de Novo Airão, no Amazonas. Imersa em uma densa região de floresta Amazônica com clima equatorial, a casa foi posicionada quase no centro do lote para mitigar impactos visuais e ambientais.

A elevação da edificação sobre palafitas foi adotada como resposta direta à topografia e à umidade do solo, reverenciando as práticas construtivas vernaculares ribeirinhas. Essa solução, além de conferir leveza visual à volumetria, promove a ventilação cruzada inferior e preserva a topografia e o ecossistema natural.

O sistema estrutural organiza-se a partir de uma trama precisa de tesouras de madeira apoiadas sobre esteios de Itaúba, que ordenam a planta baixa e recebem as vedações em tábuas macho-fêmea, pré-fabricadas em Novo Airão. O partido arquitetônico prioriza a convivência através de um generoso “varandão” central fluído, que integra estar e cozinha em um ambiente totalmente aberto à paisagem. Em contrapartida, a transição para a ala íntima é resguardada por um corredor funcional composto por armários integrados, posicionando os quartos nos fundos para garantir privacidade, conforto térmico e proteção acústica. 

A cobertura de duas águas, inspirada na sabedoria empírica da arquitetura amazônica e no legado de Severiano Porto, atua como o gesto inaugural do abrigo. Com inclinação acentuada para o escoamento rápido das chuvas torrenciais, o telhado possui beirais generosos que projetam sombras sobre as fachadas, protegendo-as da radiação solar direta. Como estratégia passiva de climatização, o fechamento superior dos ambientes utiliza painéis de treliça de madeira. Elemento marcante na identidade visual da cultura ribeirinha e naval da região, a treliça funciona como um dispositivo de exaustão do ar quente e filtro de luz, mantendo a casa em constante estado de escuta e ventilação natural com a mata. 

O fechamento flexível dos quartos é feito por portas baias, tipologia tradicional brasileira que permite a abertura total para a floresta ou o uso pivotante como janela para controle de fluxo de ar. No canteiro de obras, a busca por uma construção limpa e sem resíduos de alvenaria ou cimento orientou a especificação de banheiros leves com revestimento em fibra naval na cor verde-floresta, criando uma camuflagem visual e uma atmosfera que remete à indústria náutica local. 

O mobiliário autoral, desenhado como extensão da própria arquitetura, foi desenhado pelo estúdio e executado por artesãos de Novo Airão utilizando técnicas da carpintaria naval clássica e madeiras locais como louro, muirapiranga e roxinho. O design contemporâneo dialoga com peças históricas de Percival Lafer e com detalhes artesanais, como as tramelas das portas talhadas à mão em formato de cabo de remo por um artesão indígena local. Em perfeita consonância, o paisagismo, assinado por profissionais locais, utiliza o manejo de espécies da própria floresta circundante para apagar os limites entre a arquitetura e a mata densa. 

Autor: Dimitri Buriti

Colaboradores: Thiago Cavalli, Roberto Vietri, Thiago Fontoura

Superfície Construída: 120 m²

Obra: 2023 – 2024

Construção/ Carpintaria: Ronar

Paisagismo: Graça Felix Batista

Fotos: Manuel Sá