PAVILHÃO ARMORIAL
PROJETO
TAPEROÁ-PB, 2019
A ideia de construir o Pavilhão Armorial junto à Casa Forte da Malhada Suassuna (histórica residência do escritor e artista Ariano Suassuna no sertão) surge para atender a uma demanda crescente de visitas à Fazenda Carnaúba. Para acolher familiares, amigos e visitantes que desejam passar o dia no local, o projeto desenvolve um espaço anexo à cozinha existente, conectando a nova estrutura à sombra da árvore de umbu-cajá, área destinada ao uso como redário.
O programa de necessidades define um “bebódromo”, tradicional espaço sertanejo de convivência, celebração, refeições e descanso em redes. A intervenção abriga um fogão a lenha, um mesão de refeições, além de banheiro e lavabo. Com profundo respeito à história da Casa Forte, o volume contemporâneo do pavilhão não toca na edificação centenária preexistente, mantendo recuos e descontinuidades deliberadas tanto no plano do piso quanto na cobertura.
A operação arquitetônica parte da definição da base e do posicionamento dos pilares de concreto, alinhados no sentido das paredes de alvenaria estrutural da cozinha original. O fogão a lenha e a bancada com pia foram dispostos estrategicamente de frente para a janela da cozinha preexistente, estabelecendo uma conexão direta de fluxo e apoio. A chaminé, inserida adjacente ao pilar, adota a mesma espessura deste para manter a leitura tectônica limpa.
Optamos pelo concreto armado para a cobertura e pilares como forma de marcar com clareza a época da nova intervenção. Trata-se de uma técnica consolidada no país, cuja matéria-prima (cimento, brita e areia) é facilmente encontrada na região. A laje de cobertura apresenta inclinação levemente em “V”, oposta ao caimento da Casa Forte, criando uma calha central que drena a água de chuva por uma tubulação embutida entre os pilares. O telhado projeta-se em balanço por todo o perímetro, garantindo áreas generosas de sombreamento.
O desenho do piso faz alusão aos pavimentos da sala da Casa Forte, intercalando faixas de cimento queimado e pedra regional. No centro, uma régua de madeira incrustada servirá para marcar, a ferro, o nome das famílias que passam pelo local. As paredes do núcleo de sanitários foram erguidas em granito local, abundante na região; seu traçado curvo e contorcido acolhe um lavabo voltado para o pilar na parte interna e o reservado na porção oposta. A cobertura de concreto paira sobre as paredes de pedra sem tocá-las, gerando uma fresta perimetral contínua para ventilação e iluminação naturais.
A fachada oeste é vedada por uma parede de cobogós desenvolvida especialmente para o projeto, uma homenagem ao elemento vazado criado na década de 1920, em Recife. O desenho da peça foi extraído de um bordado tradicional em couro, em um processo gráfico análogo à monotipia, ajustando proporções para o controle eficiente da radiação solar e da ventilação natural. Os cobogós projetam sombras dinâmicas sobre pisos e paredes, integrando a luz natural mutável como componente vivo da arquitetura. A fabricação dos elementos vazados está prevista para ocorrer nas olarias locais da região.
O resultado é uma intervenção sintonizada com o sertão, que emprega técnicas e materiais regionais para potencializar os rituais do modo de vida sertanejo: o comer, o beber, o prosear e o festejar ao redor da mesa. Do ponto de vista formal, o pavilhão busca ser uma arquitetura “imaginosa, meio demente, colorida, irregular, ardente e forte”, alinhada ao pensamento de Ariano Suassuna expresso no Manifesto Armorial.
Autor: Dimitri Buriti
Local: Fazenda Carnaúba, Taperoá – PB
Programa: Anexo de Convivência (Bebódromo) e Sanitários











